Ordem nas ideias

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Comecei esta semana falando sobre o livro de Scott Belsky, Making Ideas Happen, no qual ando obcecada. O mais interessante em sua abordagem é falar sobre estratégias de produtividade para pessoas das áreas criativas, que, convenhamos, não são muito famosas por sua capacidade de organização.

Em seu estudo sistemático, a equipe da empresa de Belski, Behance, entrevistou dezenas de profissionais em áreas de criação, perguntando se eles se consideravam organizados. Uma de suas conclusões…

“O maior problema não está em como a sociedade vê as pessoas criativas, mas como as pessoas criativas enxergam-se a si mesmas.”

Entre os mais de mil indivíduos entrevistados, apenas 7% se disseram “muito organizados” e 14% afirmaram trabalhar em um estado de absoluto caos. O maior grupo, 48%, relatou “mais bagunça do que ordem”.

O que chamou a atenção foi que, longe de ser considerado um aspecto problemático, a desorganização parecia ser vista como uma espécie de símbolo de honra…

Aparentemente a mente criativa não é mesmo muito receptiva aos procedimentos de organização, principalmente pela chatice sem fim que é pensar em um lugar para cada coisa, retornar estas coisas toda vez para os mesmos lugares, escolher se vai ficar ou não com cada objeto, com cada pedaço de papel que aparece… Por exemplo, folders, livretos, catálogos, todos lindos, com papeis, formatos, ilustrações e tipografias incríveis! (Por exemplo, eu fiquei com o da Exposição “A Biblioteca à Noite”, mas ainda lembro como sofri para jogar fora o da Expo sobre o Basquiat no CCBB…)

Entretanto,

“a organização é a força guia da produtividade. Se você quer fazer uma ideia acontecer, você tem que ter um processo para fazê-lo”

palavras de Belsky, um cara que produziu aos montes…

Poderíamos falar horas sobre procedimentos de organização, e provavelmente vou escrever mais sobre isso enquanto lido com minhas próprias questões de ordem. Por ora, o que mais parece funcionar por aqui é a ordem por categorias que fazem sentido. Por exemplo, abaixo estão os livretinhos de exposições de que não pude me desfazer. Eles ficam em um pote de vidro bacana, presente de uma amiga, e à vista no meu ambiente de trabalho. Têm todos o mesmo tamanho (aproximadamente). Os critérios que uso para guardar materiais de divulgacão de Expos são: 1. memória ou significado; 2. formato, material, design; 3. número de exemplares.

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No critério 1, todos eles foram adquiridos em um momento bacana, respectivamente em uma Expo na Tate Modern com uma amiga; na Expo “Mulheres Radicais” na Pinacoteca com minha filha; na Expo “A Biblioteca à noite” com meus filhos e sobrinhos. No critério 2. Todos são do mesmo formato, têm um papel bacana e um design interessante. Não sou tão atraída pelo da Biblioteca à Noite, mas de todos é o que representa uma memória afetiva mais completa: quando as crianças aqui em casa olham para ele, lembramos juntos daquele momento;   3. Número de exemplares: 3, 4 ou 5. E só! Um dia explico por quê estes números.

 

 

 

 

Resiliência, tema da nova edição de “Cadernos Pós – PPGAU-FAUMACK”

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Está no ar a nova edição do Cadernos Pós, da FAU Mackenzie!* 

A temática desta edição explora os aspectos da resiliência das cidades. A intenção da equipe editorial foi trazer uma coletânea de artigos que pudesse contribuir para o atualíssimo debate sobre as estratégias e características de resistência, recuperação e crescimento dos tecidos urbanos diante de variadas circunstâncias desafiadoras.

Quem poderia imaginar que, poucas semanas após fechada a edição, o trágico acidente em Brumadinho viesse a nos desestabilizar tão brutalmente, trazendo sérias interrogações sobre o modo como as estruturas e infra-estruturas construídas, que alimentam e constituem nossas cidades, vêm sendo propostas, projetadas, construídas e mantidas ao longo das décadas em que têm que prosseguir operando, por pessoas e para pessoas.

Com editorial de Maria Isabel Villac, o volume traz ainda um texto inédito de Jorge Wilheim, “Cidades para Tempos Novos”, para o qual tive a oportunidade de escrever uma apresentação. O artigo de nossa editora-temática, Maria Augusta Justi Pisani “Arquitetura e Urbanismo resilientes às inundações: planejamento de áreas inundáveis e tipologias de edificações” fecha a edição.

Boa leitura!

Abraços,

Ana Gabriela

 

*Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.  Acesse a edição pelo link: http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cpgau/article/view/2018.2.Cadernos/7513?fbclid=IwAR17F8HQLfJeGHOr1m6t1L_nRHJgfc2r9vE238Y3NfK4F25XyQArVvDD6eU

A disciplina para fazer ideias acontecerem

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The tendencies of having ideas is rather natural, the path to make them happen tumultuous.  Scott Belsky

Não sei por quê me sinto tão atraída por artigos, livros, posts de blog, ou qualquer coisa escrita que fale sobre “disciplinas para fazer algo”. Talvez porque não me considere uma pessoa super-disciplinada (embora esteja longe se ser indisciplinada), e sinto que mais treino em disciplina não faria mal. Talvez porque uma disciplina para fazer algo, com ênfase no “fazer algo” seja particularmente interessante para pessoas ditas “criativas”.

Há muita controvérsia sobre o que define um indivíduo criativo. Para este post em particular, considero que se você se acha uma pessoa criativa, provavelmente é porque é mesmo. E se é uma pessoa criativa, mesmo que não esteja sendo particularmente produtiva no momento, interessa-se por recursos que possam te ajudar a alcançar, ou re-alcançar (será que existe essa palavra?), maior produtividade.

E eis um aspecto interessante sobre pessoas criativas: “produtividade” para elas tem significado à medida em que sentem que conseguem expressar, em alguma dimensão física (incluindo a música, lógico), as ideias que constantemente lhes surgem e agitam seus espíritos. Produtividade significaria então conseguir dar corpo a estas ideias em um ritmo consistente. Claro, isto pode também ter um maravilhoso efeito colateral, que é o de atender às demandas práticas do mundo do trabalho e dos negócios.

Para obter um ritmo consistente de criação, nós sabemos, é necessário disciplina. É aí que chegamos ao ponto. Pessoas criativas não são, em grande parte, disciplinadas por natureza, mas por esforço constante sobre si mesmas. E isso eu acho fascinante. Os caminhos tortuosos que alguém decide por conta própria seguir porque, tendo nascido sem o dom de pelo menos um pouco de auto-disciplina, decidem construí-la sobre si próprios para fazer algo, trazer algo ao mundo.

Scott Belski em seu livro Making Ideas Happen: Overcoming the Obstacles Between Vision and Reality ( Portfolio/Penguin 2012) analisa os resultados de sua pesquisa com centenas de pessoas criativas E produtivas ao longo de seis anos. Para o autor, ter ideias é a parte mais banal, e menos valiosa do processo criativo, pasme você.  Ele nem trata do assunto “ter ideias” em seu livro. O desenvolvimento da capacidade fazer as ideias acontecerem é o fator realmente valioso da equação. Quem poderia contradizê-lo? Quantas pessoas cheias de torrentes de ideias você conhece? Quantas você conhece que têm um ideia fixa, duas, no máximo, de cada vez, e vai materializando-as passo-a-passo? Estas são mais raras. Acredite, mais disciplinadas.

A equação de Belski para fazer ideias acontecerem é:

ideias + organização + forças da comunidade + capacidade de liderança = ideias que se materializam

O foco na definição de ações executáveis a cada passo de seus projetos é um dos princípios fundamentais do livro. Ações executáveis são precisas, bem dimensionadas, têm bem definido os recursos para se realizarem, o tempo que levam para serem executadas, a finalidade de cada uma, o resultado de cada uma, quem deve fazer cada uma.

Eis uma das preocupações que Belsky enuncia logo no início de seu texto:

I’ve always been a bit frustrated with creativity. I would get impatient watching colleagues and friends come up with great ideas only to become distracted by other ideas and the general demands os life. I,ve found the poor odds that anyone who  would actually follow through one idea very upsetting. 

Incômodo foi reconhecer que esta colega ou amiga podia ter sido eu em vários momentos de minha vida. Por outro lado, fiquei ligeiramente envaidecida em lembrar que em vários outros momentos do meu percurso, fui capaz de perseguir minhas ideia e produzir trabalhos bem legais.

Como estive dos dois lados, sinto que é possível relatar algumas interessantes observações sobre os momentos em que fui muito produtiva, e os momentos em que, nem tanto.

Nos próximos posts falarei mais de processos de criação, disciplina, e os altos e baixos da vida de quem se propõe a criar coisas: de textos a edifícios. Por ora, deixo aqui a dica: vale a pena ler o livro de Belsky.